Um café para dois

Entrei no café e escolhi a mesinha nos fundos, discreta e aconchegante. A garçonete esticou o cardápio, sorriu e afastou-se. Passaram-se quinze minutos. Vinte. Trinta minutos, e você não aparecia. Suspirei enquanto desviava do olhar cheio de pena que a garçonete lançava. Olhei para o relógio por impulso. Trinta e cinco minutos. Afinal de contas, por que eu estava ali? Estava na cara que você não viria, então por que atendi a sua ligação às duas da manhã, pedindo pra me ver? Claro, tinha o fato de que as coisas acabaram de um jeito inacabado, mas não era só isso. Quarenta e cinco minutos. Mais um suspiro. Longo dessa vez. Se havia algo a mais, não ficaria para saber, porque levantei e comecei a caminhar em direção à porta. A garçonete abriu um sorrisinho triste e voltou enxugar uma caneca. Abri a porta de vidro e, ao colocar um dos pés para fora do café, alguém esbarrou em mim, fazendo-me cambalear. Mãos firmes seguraram meus ombros, e agradeci por não ter caído no chão. Passei a mão pelo cabelo e abri a boca para começar uma discussão quando ouço:
 -Desculpe.
Congelei. Aquela voz. Eu a reconheceria em qualquer lugar, e com certeza passaria horas conversando com ela ao telefone.
 -Pelo quê, exatamente? – pergunto de maneira ríspida.
 -Pelo atraso. Por quase tê-la derrubado. – ele deu de ombros. – Por tudo.
Respiro fundo e me obrigo a encará-lo. Nossos olhares se encontram, firmes e intensos, castanho com castanho. Desde quando seus olhos são tão castanhos? E desde quando era tão alto e forte? O tempo havia mudado a sua aparência e, espero, suas atitudes.
 -Não vá embora. – pediu, segurando minha mão com firmeza e, ao mesmo tempo, ternura. Fechei meus olhos e respirei fundo. – Por favor.
Concordei e ele sorriu. Escolhi novamente a mesa dos fundos e sentamos frente à frente. Olhando para ele, percebi como ainda sentia sua falta, falta do carinho, da união, das histórias. Mais que isso, sentia falta de nós dois. Contrariando minhas expectativas, a conversa fluiu naturalmente. Conversamos sobre tudo: ele e o motivo de estar atrasado, eu e meu jeito distraído, os amigos dele, os meus amigos, a vida dele, a minha vida. A garçonete, a mesma que estivera me observando desde o momento em que pus meus pés ali, perguntou o que desejávamos.
 -Um café. – respondi. Olhei para ele .
-Um café para dois. – corrigiu, piscando para mim logo em seguida. Por fim, falamos sobre nós dois. Excluímos as lembranças ruins, as brigas e mágoas. Falamos apenas dos momentos bons, das risadas, abraços, lembramos o real motivo de gostarmos tanto um do outro. Um reencontro. Esse era o algo a mais. Nós dois estávamos ali porque ainda havia nós dois. Quando o café chegou, eu estava sentada ao lado dele, rindo de mais uma de suas piadas bobas, um de seus braços estava ao meu redor. A garçonete sorriu ligeiramente e se afastou. Desde aquele dia, passamos a frequentar mais aquele café, escolhendo aquela mesma mesa dos fundos, discreta e aconchegante, e, mais importante que isso, sempre pedindo um café. Para dois.
Leia este texto ouvindo: Último Romance – Los Hermanos
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O que eu não te disse

Pra ler ouvindo: Something – The Beatles

O vento bateu, gelado, enquanto tomava mais um gole de café na varanda de casa, arrepiando os pelos dos braços. Lembrei que você, minúscula, pulava no meu colo quando me via com frio e jogava os braços ao redor do meu pescoço dizendo que “nada esquentava mais que o calor humano” com a voz mais manhosa do mundo. Isso me fez sorrir com saudade, como sempre faço quando lembro de algo bom. Como quando lembro de você.

Comecei a me perguntar por onde você andava. Havia um bom tempo desde a última vez que nos falamos, naquela festa de um amigo em comum, onde você me contou, minutos antes de ir embora, sobre o novo emprego e como o apartamento estava bem mais arrumado depois da bagunça causada pela mudança. Você falou com tanto orgulho das suas conquistas que me permiti sentir orgulho naquele momento. Aliás, ainda sinto.

Hoje sei que alguém divide a cama contigo. E o sofá. E a rotina. E as piadas bobas que eu contava enquanto você enchia meu pescoço de beijinhos que faziam cócegas carinhosas na minha pele. Alguém que, espero, conheça suas manias e saiba que prefere chocolate quente em vez de café e admire o charme que é quando você recita versos de Carlos Drummond.

Talvez você não saiba, porque nunca te disse, mas adorava a forma como se mexia pra lá e pra cá quando Something tocava. Talvez não saiba, porque eu nunca te disse, que amava quando você cantava baixinho enquanto cozinhava. Talvez não saiba, porque nunca te disse, como o seu abraço reconfortante era a única coisa que eu queria no final do dia, principalmente dos mais difíceis.

Onde quer que esteja, quero que saiba que guardo todas as nossas fotos numa caixinha e vez ou outra me pego olhando para elas com saudade. Você foi, e ainda é, parte de mim e por isso sou grato. Sendo a curiosa que és e como sei que gostaria de saber: sim, eu ainda enrolo na cama depois de acordar. Ainda espero a música acabar pra sair do carro. Ainda gosto de receber uma ligação antes de dormir. E, claro, ainda pareço uma criança quando fico doente.

Eu, que me afastei por me achar dono do mundo e do destino, espero que sorria ao terminar de ler e também sinta saudades dos momentos que pra sempre serão apenas nossos.

 

Deixe-me ir, meu bem.

Senta aqui, não faz essa cara. Prometo não tomar muito do seu tempo, muito menos tornar isso mais difícil do que já está sendo. Eu sei, você não quer falar sobre isso, mas também não parece querer mudar a situação, então eu tô dando o primeiro passo. Por mim. Por você. Por nós.

Deixe-me ir, meu bem. Há tempos te sinto distante, tua mão não segura a minha, meu colo não te acalma, perdemos a noção da hora. Deixe-me ir, meu bem. As conversas viraram silêncio, as portas batendo e as noites mal dormidas viraram rotina. Tornei-me um “tanto faz” no meio da sua semana.

Deixe-me ir, meu bem. Não pense que guardo rancor. É necessário e importante dizer que fiquei e me esforcei enquanto você também ficou e se esforçou, mas não foi o suficiente. Nunca é quando alguém resolve soltar um dos lados da corda cedo demais e, meu bem, esse alguém foi você.

Deixe-me ir, meu bem. Mas não pensa que fui por não sentir um infinito de ternura por você. Não, meu amor. Tô indo porque você, dia após dia, me convenceu de que não havia mais espaço pra mim na sua vida. Tô indo porque entendi que não posso te forçar a ficar quando você já foi, mas me segura por puro comodismo. Não, meu amor. Tô indo porque prefiro guardar nossos dias bons na mala e carregar por aí do que ficar mais um minuto aceitando migalhas e falsas expectativas de algo que não volta.

Deixe-me ir, meu bem. Por favor, não me olha assim, como se fosse uma surpresa me ver falando isso tudo. Eu avisei, meu bem, mas você estava ocupado demais com meras efemeridades pra notar que eu falava sério. Eu te amei em cada erro, cada ida, cada ligação às duas da manhã quando era sua última opção, cada promessa de não cometer o mesmo erro, mas você cometia.

Deixe-me ir, meu bem. Precisei quebrar a cara mais algumas vezes até entender que não posso mais largar o meu mundo pra segurar o seu. Deixe-me ir, por favor. Vou sentir saudades suas e provavelmente escutarei “Something” quando isso acontecer, mas preciso ir, meu bem. Por favor, se cuida. E lembre-se: eu fui com a maior vontade de ficar.

Há tempos

Hoje resolvi te escrever. Há tempos não mexo naquela gaveta da memória onde guardei, à sete chaves, tudo aquilo que um dia chamamos de “nós”, mas que vez ou outra gosto de visitar pra lembrar algumas situações, lições e sensações só pra ter a certeza de aquilo ainda me comove. Sei que há coisas que não merecem a visita, mas esse não é o caso, e por isso te deixo uma carta.

Se ainda posso te pedir alguma coisa, se ainda tenho esse direito, por favor leia esta carta ouvindo “Quando bate aquela saudade”, do Rubel, porque estou ouvindo agora e sei que isso te fará compreender cada sílaba escrita aqui. Você, mais que ninguém, sabe bem que tenho minhas manias, como a de ter uma música pra cada situação que a vida oferece.

Pois bem, como vai você? Há muito não nos vemos, falamos, tocamos. Espero que esteja bem e ainda tome aquele chá quentinho quando começa a ficar resfriado, já que lembro de como isso te deixava melhor. Também não esqueço as risadas, as conversas sobre tudo e qualquer coisa, e como você tinha o abraço certo na hora certa.

Meu bem, não carregue o peso do mundo nas costas. Peço que tenha paciência, entenda que interesse está muito longe de ser vontade de amparar a bagagem e que, ao contrário do que muitos dizem, tudo se resume unicamente à primeira pessoa pra quem você quer contar as novidades. Lembre-se disso. Sempre.

Apesar de tudo, sinto saudades, viu? Uma saudade gostosa de algo bom que vivi e que, como tudo o que comove, ainda me arranca algumas boas lágrimas. Mas não importa. Vivemos à flor da pele, colecionamos histórias e sensações, mas sempre seremos nós dois. Nós, que gramaticalmente é plural, mas que se transformou em singular pra poder falar da gente.

Então, moreno, termino essa carta por aqui, com plena certeza de que guardei (e ainda guardo) teus sorrisos delicados, teus medos mais bobos, os soluços mais altos, tuas manias e aquelas histórias que você sempre repetia, mas toda vez era a primeira vez que eu ouvia. Espero que um dia você encontre essa carta e a leia juntamente com a música que te falei no início e, ao terminar, num misto de emoções, você suspire e repita “pra sempre, pequena”.

Fila do pão

Alguns dias atrás, nos esbarramos na fila do pão. Há meses não nos víamos e, talvez pelo tempo, você nunca me pareceu tão bem. Desde quando seus olhos eram tão castanhos e brilhantes? Você sorriu e começamos uma conversa trivial. “Como vai sua mãe?”, “parece que vai chover”, “o trânsito está caótico”, sorrisinhos sem graça pra cá e pra lá, um silêncio quase incômodo antes de seguirmos nosso rumo. “Se cuida”. É sério? Pra quem dividia a cama, agíamos como dois completos estranhos com um passado juntos.
Quando dei por mim, os dias já haviam passado. Naquela tarde, joguei-me na cama e por lá fiquei horas a fio. Já estava escuro lá fora quando olhei pela janela e um vento forte esvoaçava as cortinas. A porta do quarto bateu com violência, obrigando-me a fechar todas as janelas e portas da casa. Voltei para a cama e logo a chuva começou a cair .
Durante algum tempo, permaneci imóvel encarando o teto; depois, me peguei fazendo mil perguntas que tentassem me fazer entender o que estava acontecendo. Não sabia ao certo quando as coisas haviam mudado; em que momento, em que fração de segundo, todas as certezas tornaram-se dúvidas. Já sabia que cada encontro ao acaso mexeria comigo, mas não a ponto de me fazer questionar minhas atitudes.
Lembro do dia em que você pediu que não deixasse o trem passar. Bem, eu deixei e você bateu a porta da frente. Se eu soubesse antes…
Desde que nos encontramos na padaria, meus amigos vem tentando me convencer de que o imenso vazio que eu sentia era apenas saudade. Quem me dera! Saudade dá, sempre dá. Mas a gente lê um livro, toma um café e ela, do jeito que surgiu, desaparece. Mas não. O que sinto já faz morada em mim; entra pela porta da frente, senta no sofá e lá permanece. Pelo menos têm sido assim desde aquele dia. Que ironia, não? Eu acabo e você que vai embora.
Sinto falta do seu carinho. Sinto falta de como enchia meu rosto de beijinhos até que eu acordasse da soneca da tarde e como se aventurava na cozinha só pra me agradar. Sinto falta daquela sua roupa que escolhi ser minha preferida e você usava porque sabia disso. Sinto falta do colo que me dava quando mais precisava e de como apoiava meus sonhos. Sinto falta do abraço que só você sabe dar. Sinto falta do seu perfume doce, do seu beijo, do seu corpo, da sua pele, do seu toque. Droga, sinto falta até da sua teimosia! Ah, meu bem, eu sinto sua falta.
A chuva agora cai fina. Tranco o apartamento e, enquanto ligo o carro, rezo para que esteja em casa. Dessa vez eu não deixaria o trem passar.
Pra ler ouvindo: Pra você dar o nome – 5 à seco

Ventura

E, por descuido ou poesia, ainda vão se cruzar por aí. Vão sorrir um para o outro e iniciarão uma conversa casual demais para duas pessoas que se conheciam tão bem.
Ele vai falar sobre a rotina puxada, como vai sua mãe, você já ouviu o disco novo do Caetano? Ela vai reclamar do trabalho, a correria do dia a dia, vai falar sobre o apartamento que alugou agora que mora sozinha.
Depois de alguns goles de café, ela vai lembrar de algo engraçado que ele disse e os dois vão rir mais uma vez. O encontro de olhares após a risada lembrará o quanto sentem falta um do outro e, sem querer, ele vai deixar escapar como ela está bonita.
Na despedida, um abraço apertado seguido da certeza de uma saudade mútua, mas uma certeza ainda maior de que, afinal, depois de tantos desencontros, o tempo havia passado.

Ana Luiza Santos

Porta, retrato

Olhando assim, de longe, nem parecia aquela moça frágil que há quase um ano saiu do apartamento jurando não voltar para o erro que vinha sendo ficar comigo. Naquela tarde, entre lágrimas e desculpas, ela colocou as roupas que mantinha na gaveta dentro de uma bolsa; sem me olhar murmurou “eu não consigo mais lidar com esse caos que é você” e bateu a porta. Deixou ali um retrato e a xícara de chá pela metade. Levou, ainda que se recusasse, parte de mim.
Apesar de ver certo glamour em tê-la amparando meu caos, tarde demais entendi que o tempo, a intensidade e a exigência disso tudo havia tirado o brilho dela. Sem dúvidas, afirmo: ela era mais mais bonita que um fim de tarde na Barra, tão morena quanto a música do Camelo e mais tropicana que a de Alceu, o sorriso quase tão bossa-nova quanto qualquer música de Vinicius e Tom.
Por algum tempo a vi discreta pelos lugares, sempre se refugiando atrás de livros e papéis, mas hoje não. Ela me viu de longe e um esboço de sorriso apareceu em seu rosto. Acenou e olhou para além de mim, para ele. O sorriso se abriu quando se aproximou dele, rodopiando em seus braços, cabelos ao vento. Olhando assim, de longe, era visível a paz que ele trazia consigo e, convenhamos, depois de tudo, ela não merecia nada além de paz. Naquele momento, serena, com toda certeza afirmo: ela era mais poesia que mulher.

Pra ler ouvindo: Porta, Retrato – Cícero

Ensaio sobre ela

Ela chegou naquela manhã como quem não quer nada, sentou ao meu lado e mesmo sem nem me conhecer direito, piscou os pequenos olhos castanhos e disse: “tudo bem, pode desabar”. E não é que eu desabei? Falei por minutos ininterruptos que se arrastaram como horas e ela me escutou sem reclamar ou rir do meu drama. No final, tudo o que disse foi “o que você quer fazer a respeito? Já pensou nisso?”, e me encarou por alguns segundos antes de levantar e ir embora, Dá pra acreditar? Passei aquele tempo todo falando e tudo o que ela faz é perguntar o que quero fazer a respeito? Voltei para casa, então, com a bendita pergunta na cabeça e, como se não bastasse, a autora dela também.
No dia seguinte, a moça estava lendo um daqueles clássicos que demandam maturidade e paciência quando me aproximei. Marcou a página com o dedo e ergueu uma sobrancelha, como se estivesse perguntando “e aí?”. “Eu pensei a respeito e esse tipo de solidão não é pra mim”, informei sem nem mesmo saber o que ela queria fazer a respeito. “Bem, agora chegamos a algum lugar”, declarou com um sorriso. A moça abraçou meu caos, quem diria? Entre “você supera” e “é só mais uma, cara”, quem diria que o “pode desabar” dela, quase uma estranha até então, seria tão reconfortante?
Algumas semanas depois, inevitavelmente, abracei o caos dela. Não só abracei como amei a linha tênue que o separava da paz que ela era capaz de trazer. Amava as metáforas, a risada, o jeito como via o mundo, a revolta com causa, o jeito como tentava dançar quando aquela música dos Beatles que ela jurava ser dela começava a tocar, a cara de sono; como havia feito morada ali por ventura. Eu amava, pura e simplesmente, o que havia me tornado por conta dela.
Pra ler ouvindo: Ensaio Sobre Ela – Cícero

O grande "se"

Naquela tarde, entre livros espalhados pela cama e discos jogados no chão, não sabia dizer o que estava mais bagunçado: meu quarto ou minha vida. Achei nosso disco favorito e quando nossa música começou a tocar, fechei os olhos e pensei nos muitos “se” que me perseguiam desde que decidi deixá-la para trás.
Se eu não a tivesse chamado para conversar naquela tarde, ela não teria chorado baixinho enquanto me afastava. Se eu não a tivesse ignorado por dias, não teria criado tantas dúvidas. Se certo alguém não aparecesse, eu não teria dúvidas. Se ela não fosse delicada, se eu não fosse indeciso, se ela não ficasse linda naquele vestido rodado, se não achasse tudo nela demais, se ela não fosse frágil ainda que independente, se não parecesse tão leve dançando sozinha enquanto “Something” tocava na vitrola, se não fosse teimosa, se não fosse tão pontual com o chá, se não enrolasse distraidamente o cabelo enquanto lia, se não parecesse poesia…
Se, se, se. A vida sem ela era um grande “se”.

Ana Luiza Santos

Leia ouvindo: Por que você faz assim comigo? – Mallu Magalhães